Por José Silvério Lemos – Membro do COA-ES.

Frequentemente pessoas conhecidas, praticantes ou não de nosso esporte preferido, observar aves, me perguntam se precisam contratar um guia para ajudá-los a observar e identificar aves. Afirmam que sem um guia não conseguem desenvolver com segurança a atividade de observar aves, ou então, argumentam que somente um guia experiente poderia lhes dizer “quem é quem”, isto é, dizer a eles que ave é aquela que pousou na árvore ou que cantou ali próximo.

Nada tenho contra os guias. Conheço alguns, exímios profissionais que realmente podem nos ajudar e muito, na tarefa de encontrar aves, eu mesmo, já contei com a ajuda de alguns.

Porém, é necessário destacar, que nunca dependi completamente de um guia para ir a campo observar aves! E qualquer pessoa pode perfeitamente bem desempenhar essa tarefa. Acrescento ainda, que não depender de guias é até mais prazeroso, pois podemos cumprir, uma a uma, todas as etapas que levam até a identificação de uma ave.

A coisa funciona assim: imagine uma ave anônima voando próxima. Ao registrar seus movimentos, suponhamos que não a conheça ainda! Então, após fotografá-la, preciso anotar o local onde foi registrada, o tipo de vegetação do lugar, observar se ela estava se alimentando ou não, enfim seu comportamento no lugar. Se estava escondida no meio da vegetação ou se estava no aberto, bem exposta. A partir desse momento, aquele sujeito emplumado e de bico, um desconhecido, passará por um processo de identificação, até eu dar-lhe um nome, já conhecido, e um lugar. Esse o grande prazer do birdwatching, o momento em que uma ave desconhecida passa a ocupar um lugar em seu mundo particular, com nome popular, científico e o registro que você mesmo fez.

Mas porque é tão difícil identificar? Ora, alguns conhecimentos básicos todos temos não é mesmo? Sabemos o que é um urubu, que é um bem-te-vi, ou uma rolinha. Mas, e daí? E se aparecer aquele desconhecido? E mais, imagina aqueles “ermitões” que vivem escondidos no meio da mata, lá na sombra, na penumbra?

Realmente esses, e muitos outros, são difíceis de se identificar, mas com o tempo vamos aprendendo como fazer isso, se não perfeitamente, pelo menos com grande precisão! Na verdade, muitos de nossos passeriformes, somente são perfeitamente identificáveis, em laboratórios, por especialistas e com o pássaro na mão. E não é nenhuma vergonha cometer erros na identificação de algumas espécies! Cientistas renomados, algumas vezes também erram!

Nesse momento, um bom Guia de identificação de aves ajuda. Existem muitos no mercado, e sua função principal, acredito, hoje, é fazer com que o observador consiga pelo menos enquadrar em qual categoria procurar a ave. Por exemplo, uma pomba, ave semelhante a uma rolinha, deve ser procurada na família Columbidae. Um periquito, na família dos papagaios, os Psitacídeos.

No momento em que conseguimos enquadrar uma ave em sua família, já estamos com meio caminho andado e a partir daí até atingir sua identificação final, é um passo.

Os guias impressos de identificação de aves já foram muito mais necessários que hoje em dia. Com a internet e o WikiAves, se conseguirmos enquadrar a ave corretamente em sua família, podemos por meio da comparação chegar a um bom resultado.

Mas atenção: não se identifica uma ave apenas por comparação com outra imagem. Outros caracteres devem ser observados. Principalmente seu comportamento e o local onde a observamos. A observadora ou observador, deve ser capaz de discernir e saber onde procurar a ave. Um frango d’água por exemplo, muito provavelmente não será visto em um local seco! Então, ao virmos uma ave mergulhando em uma lagoa, devemos logo de início desconfiar que pode se tratar de um mergulhão, ou, provavelmente, se não for, talvez um frango d’água ou outra ave aquática!

Esse passo para identificar uma ave, pode ser rápido ou demorado, dependendo da abundância da ave. Um quero-quero, por exemplo, além de ser ave muito comum, emite uma vocalização muito conhecida. O ideal é o(a) aspirante, treinar a ouvir os cantos das aves, por etapas, um grupo de cada vez. Por exemplo, as dez mais comuns, depois mais dez e assim sucessivamente.

Além dessa etapa, a observadora ou observador pode perguntar: Mas onde posso achar essa ave? Primeiro, sabendo quem quero encontrar, ou melhor, qual ave desejo encontrar, procuro na literatura ou na internet.

De novo no WikiAves, qual é o habitat preferido dessa ave e os locais onde já foi registrada. Sabendo onde encontrar a ave e seus hábitos, vou a campo procurá-la.

Tomemos um exemplo. Vejamos o caso do guaxeCacicus haemorrhous!  Desejo encontrar um guaxe, o que devo fazer? Ora, na literatura, diz que é ave florestal, daí ser encontrada em matas, florestas, bordas de matas, e que prefere “baixadas quentes com florestas” (SICK, 1997). Obviamente, primeiro já devo estar preparado para distinguir um guaxe se esse aparecer na minha frente. Se já sei onde encontrá-lo, vamos a campo.

Claro que a definição de onde provavelmente encontrá-lo, não significa que todo guaxe somente vai ser visto dentro da mata. Em todas espécies existem aqueles indivíduos cheios de personalidade que gostam de se comportar de modo diferente.

E você pode encontrar um guaxe até mesmo no quintal de sua casa! Embora isso não seja comum, a não ser que sua casa seja vizinha a alguma mata. Mas, vamos então ao campo atrás do guaxe.

Com um pouco de leitura ou conversa com quem já viu um guaxe, você vai descobrir que os guaxes adoram beiras de rios dentro ou próximo a matas, onde costumam pendurar seus ninhos sobre a água. Então, lá vamos nós. De repente, na borda da mata ciliar ou mesmo na beira do rio, você escuta o chamado áspero e inimitável: guaxe, guaxe.

Pronto, felicidade total, você encontrou sua ave de estimação e pode agora tirar fotos para sua galeria, mostrar aos amigos e postar na internet.

Conheço uma pessoa, que desejava conhecer e fotografar a viuvinha-de-óculos Hymenops perspicillatus.

Apaixonada por essa linda criatura, nossa amiga procurou onde encontrá-la. Primeiro sua distribuição geográfica indicava que poderia ser localizada mais facilmente no sul do Brasil. Então, para lá se dirigiu e finalmente conseguiu registrar e fotografar sua paixão.

A observação de aves é assim, uma atividade fascinante e empolgante e precisamos dispor de nossas próprias aptidões para localizá-las e, quando for necessário, solicitar a ajuda de um guia.

E fotografar aves, já é matéria bem vasta para um outro artigo, mas por enquanto, pelo menos, você já pode observar aves sendo seu próprio guia!

 

Um abraço e felicidades!

11 respostas

  1. Parabéns José Silvério pelo artigo, simples e direto ao ponto, que é o prazer de observar aves e eventualmente fotografá-las! Seu belíssimo artigo remeteu-me ao meu inicio nesse maravilhoso hobby, pois foi dessa maneira que comecei e até hoje as utilizo nas identificações de aves.

    Um grande abraço meu comandante.

  2. Ótimo texto, José Silvério! Simples, didático e animador para quem está começando ou vai começar na observação de pássaros. Naturalmente quando em companhia de outro observador experiente, as coisas ficam mais simples e os resultados melhores e mais rápidos. Mas, aos poucos, vamos aprendendo a distinguir e a encontrar as aves, seus hábitos e as melhores formas de registrá-los. Parabéns!

    1. Valeu Victor, é exatamente dessa forma que vamos nos iniciando nessa atividade incrível ! Claro que a presença de alguém mais experiente vai nos ajudar a encontrar a ave que procuramos! Um abraço !

  3. Muito bom artigo caro JS.
    Dicas importantíssimas para quem quer ser um observador de aves.

  4. Excelente artigo! Já me aventurei na observação de pássaros e foi uma experiência maravilhosa, espero em breve poder repetir!!

  5. Adorei o texto, muito agradável a leitura, bem ilustrativo e informativo! É muito legal esse incentivo pra todos nós que observamos pássaros!

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